A predestinação da nação em Dostoievski e ideais brasileiros
Em Irmãos Karamázov, do brilhante Fiódor Dostoievski, vê-se, sobretudo na figura do Stárets Zóssima, a crença mística - como cremos que é - de que a nação russa, por motivos explicitados mais adiante, corresponderia àquela encarregada de levar à salvação a uma humanidade perversa e ateia. Diante autores brasileiros que, embora relevantes não tão brilhantes quanto o autor russo, uma ideologia - expressemo-la assim, por ora -. parece erguer-se com bastante semelhança, embora já caduca como milenarismo luso e/ou luso-brasileiro.
Tratam-se, especificamente, de grupos conservadores e católicos, frequentes nas mídias sociais daqueles que, como eu, também consideram-se defensores da tradição. A principal linha argumentativa diz respeito à predestinação da nação brasileira que, dentre todas as demais, encarrega-se de fazer ressurgir a cristandade, isto é, a comunidade de nações orientadas a Cristo e submissa à Igreja. Os milenaristas lusitanos também tinham cara à sua nação essa missão, sobretudo na figura do Quinto Império, idealizada pelo padre Antônio Vieira. Aqui, se alguns dos nossos conservadores ainda não são capazes de identificar que o Brasil já constitui uma nação distinta de Portugal, muitos que já o consideram - o que parece-nos óbvio e anacrônico como discussão -, trazem consigo aquela ideia tão cara ao milenarismo de predestinação, desta vez por sermos herdeiros da tradição místico-política lusitana.
Logo, também é o Brasil, segundo tal lógica, destinado a reerguer a cristandade e, como dizem, salvar o Ocidente cristão. Sem mais delongas, lembro-me especialmente da organização intelectual Brasil Paralelo defendendo essa visão, embora essa defesa faça-se sobretudo através de outros nomes diversos. Ressalta-se que mesmo a visão de Ocidente cristão é, também, frequentemente obscura, pois se confunde com conceitos como cultura judaico-cristã. Parece-nos, até mesmo, fruto do modernismo que tudo relativiza e que, neste caso, equipara opostos.
A figura apresentada no romance de Dostoievski - e também na realidade daquela época - era de uma Rússia pobre, imersa nos vícios e na devassidão. O santo de Dostoievski aproxima-se do criminoso e, de algum modo, é necessário que assim seja, pois de outra forma não conseguiria a verdadeira e intensa redenção necessária para erguer-se altivo. Assim, também, a nação perdida é apta a reerguer as demais através de seu testemunho de redenção.
O Brasil também é uma nação decadente, assim como aquela Rússia do final do século XIX. No entanto, comparações históricas com a nação euroasiática não seriam, também, animadoras, já que daquela tensão entre o sagrado e o profano, escolheram, infelizmente, o profano através da revolução. E, inegavelmente, a população russa daquela época era muito mais religiosa que a brasileira hoje, ou em qualquer momento de sua história.
Mas para o autor russo, a dúvida pairava e era compreensível. Para o atento observador brasileiro não deve restar dúvidas. A escolha do profano já foi feita, e o que se colhe politicamente ou economicamente, é fruto dessa decisão. Não se trata de um ataque aos absortos patriotas, e sim um chamado ao realismo: Sim, somos uma nação distinta, nossas matizes são únicas e, em muitos aspectos, nos fortalece, como aborda Gilberto Freyre, mas nossas máculas não gerarão seus opostos, por obviedade. O vício não gerará a virtude e o crescente autoritarismo não engendrará a liberdade.
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